Lampadário de Cristal

“Lampadário de Cristal que mandou a Duquesa de Saboia à Real Majestade da Poderosíssima Rainha de Portugal sua irmã. Idílio Panegírico a suas Altezas Reais o Príncipe D. Pedro, e sua Augusta Consorte
D. Maria Francisca Isabel de Saboia”.
 

Alpe luzido, luminar nevado,
Pompa da Régia sala,
Tesouro no valor, brinco na gala,
Onde à matéria vasta a subtil arte,
Fazendo ilustre excesso,
O preço abate sublimando o preço:
Confusão, porém clara,
Da luzida no Céu, na terra escura
Ciência, que reparte
Fortuna a Vénus, e infortúnio a Marte;
Porque quando separa
Do cristalino Céu Céu estrelado,
Vosso puro cristal, vossa luz pura
Une, fazendo próprio o peregrino,
Com estrelado Céu Céu cristalino.
Lâmpada soberana,
Digníssima do templo de Diana,
Mas se nele tivera
Vossa luz sua esfera,
Com tal excesso brilha,
Brilha tão sem exemplo,
Que fora mais estranha maravilha
A lâmpada que o templo;
Que fora o templo, emulação do Pólo,
De Diana por si, por vós de Apolo.
Belo farol luzente,
Mais do que objecto, admiração da gente,
Digno da torre, não menor que Atlante,
Da torre que segundo
Milagre foi do Mundo,
Antes mais que da torre, do Gigante,
Que se vira tão lúcidos assombros
Em seus robustos estrelados ombros,
A todo o Céu tratara com desprezo,
Pois vós tendes mais luz, e o Céu mais peso.
Rica facha pomposa,
A cuja luz, mais que as estrelas clara,
Aquela ave famosa,
Não sei se verdadeira ou fabulosa,
Aquela ave do Sol e Sol das aves
De ser Fénix deixara
Só por ser borboleta,
E sendo borboleta a ser tornara
Outra vez ave do maior Planeta,
Pois Fénix entre incêndios tão suaves,
Borboleta entre tochas tão luzidas,
Com gostos imortais, perpétuas sortes,
Qual Fénix renovara inda mais vidas
Por lograr borboleta inda mais mortes.
Nocturno Sol fermoso,
A cuja luz, mais que à do Sol, quisera
Ícaro derreter vanglorioso,
Asas não só, mas corações de cera,
Porém, se os derretera
No fogo lisonjeiro,
Não chorara perdida
No salgado cristal a doce vida,
Que entre suaves mágoas
Lha tiraram primeiro
Os incêndios que as águas,
As luzes, que os incêndios,
E não seria só luz tão brilhante
Que deixa ao Sol estrela
Da vida juvenil Átropos bela,
Mas ainda seria
Parca gentil do artífice elegante,
Que com tantos dispêndios
Depois de Autor foi réu do labirinto,
Pois quando faz que a noite vença o dia,
Sendo ocaso da luz à luz de Cinto,
Tanto aos olhos namora
Que quem Dédalo foi, Ícaro fora.
Fermoso Sol nocturno,
Cuja luz tanto admira,
Que se a vira o varão, vira o mancebo
De Jápeto penhor, penhor de Febo,
Que tendo em larga idade escassa sorte
Não morre à vida por viver à morte:
Que tendo em Céu sereno escuro fado,
Com ser filho do Sol é desgraçado;
Um nunca encarcerado, e sempre preso,
Pois vê livre e sujeito
O monte aberto, como aberto o peito:
Outro mais frio quando mais aceso,
Pois chora extinto num outro elemento
De fogo a morte, de água o monumento;
Ou se a vira Faetonte,
Se Prometeu a vira,
Quando qual Sol e Aurora
Na cera quanto bela derretida,
Lagrimosa não menos que luzida,
Alegre como Sol, como Alva chora,
Nem Faetonte prezara,
Nem Prometeu roubara.
Fogo celestial, farol diurno,
Só por vós mais ousado
Fora seu furto e brio,
E se aquele no rio,
E se estoutro no monte,
Por tão lustroso crime
Ou fora preso ou fora sepultado,
Em virtude de causa tão sublime,
Por glória reputara
O primeiro, o segundo delinquente
A corrente, a corrente
Que aperta, que desata
O Cáucaso de ferro, o Pó de prata.
Claridade excessiva, antes imensa,
Em luzes rara porque em luzes densa,
Ilustre, singular, prenda admirada,
Que com digna de si Real grandeza,
Por mão de Embaixador excelso manda
À Majestade mor a mor Alteza,
Que manda... (Oh, se meu canto
Aqui subisse tanto,
Que pudesse passar da terra ao vento,
Do vento ao Céu, do Céu ao Firmamento,
E desde o Firmamento até ao Empíreo!)
Que manda a rosa ao lírio,
Antes o brinco à jóia,
Antes ao Sol a estrela,
Antes a bela irmã à irmã mais bela,
Esta de Lísia, aquela de Saboia,
Que o ser irmão é mais nesta e naquela
Do que o ser fermosa, e mais fermosa.
(...)


Autor: Padre Jerónimo Baía (1620/30-1688)
Editado por: nicoladavid

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