A Uma Crueldade Formosa



A minha bela ingrata

Cabelo de ouro tem, fronte de prata,

De bronze o coração, de aço o peito;

São os olhos luzentes,

Por quem choro e suspiro,

Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito,

Celestial safiro;

Os beiços são rubins, perlas os dentes;

A lustrosa garganta

De mármore polido;

A mão de jaspe, de alabastro a planta.

Que muito, pois, Cupido,

Que tenha tal rigor tanta lindeza,

As feições milagrosas,

Para igualar desdéns a formosuras,

De preciosos metais, pedras preciosas,

E de duros metais, de pedras duras?

 

Autor: Jerónimo Baía (1620/30-1688)
Editado por: nicoladavid

Comments