Ó Divino Pão do Céu

“Ao Santíssimo Sacramento, em tempo, que os   castelhanos tinham de cerco a praça de Elvas”


Ó Divino Pão do Céu,
A quem o Povo inclemente
Segou tão barbaramente,
Tão cruelmente moeu,

Livrai, livrai de perigos
Meus versos desalinhados,
Mas não temo vão errados,
Bem que vão por estes trigos.

Dai-me instrumento inaudito,
Voz sonora, e frase aceita,
Que certo adágio receita,
A bom bocado bom grito.

Dai-me graça nesta acção,
E não noteis esta traça,
Que eu sempre vos peço graça,
Como quem vos pede pão.

Em palhas fostes nascido,
Em terra virgem criado,
Se dos Judeus pão trilhado,
Dos fiéis pão escolhido.

Por alvo vos tem o Mundo,
Pão que o Mundo fazeis alvo,
Porém sendo pão tão alvo,
Não deixais de ser segundo.

Com ser de farinha pura,
Sem ter joio misturado,
Se sois no peito encerrado,
Deixais nele alimpadura.

Sois pão muito regalado,
Mas pareceis rigoroso,
Porque sendo tão mimoso,
Não podeis ser mastigado.

Sois pão de trigo de Egipto,
Pois tendes tal condição,
Que sendo um único grão,
Sempre sois pão infinito.

Mas é para admirar
Que sendo um pão tão mimoso,
O Hebreu cego aleivoso
Vos não possa inda tragar.

Não se vos dê disto nada,
Que o pão de trigo excelente
Não serve para esta gente,
Cujo comer é cevada.

Sois liberal com tal traça,
Pródigo com tal excesso,
Que sendo pão de mui preço,
Vos dais sempre mui de graça.

Em vós se vê pão sagrado,
Todo o algarismo perdido,
Pois quando sois repartido,
Então sois multiplicado.

Minha alma vos traz a rol,
Porque lhe dais muitos dias
Tão delgadas as fatias,
Que vê por elas o Sol.

Tendes tal propriedade,
Sendo pão de entendimento,
Que dais melhor nutrimento
A quem vos tem boa vontade.

Mas quando mais franco estais,
Sois como rico avarento,
Não vos dais por alimento,
Mas por relíquias vos dais.

Prometeis com larga mão,
Mas não vos dais à mão cheia,
Pois prometendo uma ceia,
Nos dais uma comunhão.

Nunca de vós nos fartamos,
Antes sempre fome temos,
Porque quanto mais comemos,
Tanto mais Anjos ficamos.

Sois pão do Céu, que a Trindade
Mandou para ser vendido
Na nossa terra, metido
No saco da humanidade.

Trigo, que a fome alivia,
Sois, e dizem, que do mar
Os que vos viram embarcar
Em a Nau Santa Maria.

Sois pão das almas amigo,
Mas por modo milagroso,
Quando sois todo amoroso,
Então não sois todo trigo.

Nossa Fé nos assegura
Que é este pão soberano,
Por ser divino, e humano,
O pão da melhor mistura.

E tem suavidade tanta
Este pão celeste, e santo
Junto com esforço tanto
Que os espíritos levanta.

Sois pão alvo como vemos,
Porém não vos enxergamos,
Pois quando vos comungamos,
Sempre às escuras comemos.

Em chamas de amor ardentes
Sois, meu pão, todo abrasado,
Que enfermo de namorado,
Sempre estais com acidentes.

Por Esposo vos procuram
Muitos, que por vós se abrasam,
Os bons convosco se casam,
Os maus somente vos juram.

Termos vejo encontrados
Nos amigos, que escolheis,
Pois tendes por mais fiéis
Os mais reconciliados.

Oh, notável estranheza
Nesta de amor doce calma,
Pois são os amigos da alma
Os mesmos que o são da mesa.

Estes são de vós amados,
Se bem quando vos recebem,
Então o sangue vos bebem,
Então vos comem a bocados.

Sois Rei, e Rei muito lhano,
Mas os Ministros amados
Andam mui endeusados,
Quando vós sois mais humano.

Tendes condição tão boa,
Tendes mãos tão liberais
Que o vosso poder lhes dais,
E lhes pondes a coroa.

Eles amantes requebram
Vossos divinos primores.
Mas não são aduladores,
Bem que sempre vos celebram.

Ser Rei dos pães é mui certo,
E assim vos peço esta vez
Que sejais Rei Português,
Pois que sois Rei encoberto.

Dai-nos paz, pois que vos praz
Ter à paz inclinação,
Mas que muito se sois pão,
Sejais amigo de paz?

Tenha Portugal sossego,
E veja nosso inimigo
Que sois do Alentejo trigo,
E não sois trigo Galego.

Item mais à Ordem minha
Dai, meu Senhor, vossa mão,
Para que com tão bom pão
Façamos boa farinha.


Autor: Frei Jerónimo Baía (1620/30-1688)
Editado por: nicoladavid

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