Não te Arrependas

 

Não te arrependas, Amada, porque a mim tão depressa
te deste!

Podes crer, nem por isso de ti penso coisas insolentes
e vis!

Vária é a acção das setas do Amor: algumas arranham,
E do rastejante veneno languesce p’ra anos o peito.

Mas, com penas potentes e gume afiado de fresco,
Outras penetram até ao tutano e rápido inflamam
o sangue.

Nos tempos heróicos, quando Deuses e Deusas amavam,
Ao olhar seguia o desejo, ao desejo o prazer.

Crês tu que a Deusa do Amor pensou muito tempo
Quando no bosque de Ida um dia Anquises lhe
agradou?

Se Luna tardasse a beijar o belo dormente,
Auiora, invejosa, em breve o teria acordado.

Hero descobriu Leandro no festim ruidoso, e ligeiro,
Ardente saltou o amante para a corrente nocturna.

Rhea Sílvia, a virgem princesa, vai descuidosa
Buscar água ao Tibre, e o Deus dela se apossa.

Assim Marte gerou os seus filhos! — Uma loba
amamenta.

Os Gémeos, e Roma nomeia-se princesa do mundo.

Autor: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Editado por: nicoladavid

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