A linhagem do Mar

 

O Mar gerou Nereu sem mentira nem olvido, filho o mais velho, também o chamam Ancião porque infalível e bom, nem os preceitos

olvida mas justos e bons desígnios conhece.

Amante da Terra gerou também o grande Espanto e o viril Fórcis e Ceto de belas faces e Euríbia que nas entranhas tem ânimo de aço.

De Nereu nasceram filhas rivais de Deusas no mar infecundo. Dádiva de belos cabelos virgem do Oceano, rio circular, gerou-as:

Primeira, Eficácia, Salvante, Anfitrite, Doadora, Tétis, Bonança, Glauca, Ondaveloz, Gruta, Veloz, Marina amável, Onidéia, Amorosa, Vitória de róseos braços, Melita graciosa, Portuária, Esplendente,

Dadivosa, Primeira, Portadora, Potente, Ilhéia, Recife, Rainhaprima,

Dádiva, Onividente, formosa Galatéia, Eguaveloz amável, Égua-sagaz de róseos braços, Pega-onda que apazigua no mar cor de névoa

facilmente a onda e o sopro de fortes ventos com Aplana-onda e Anfitrite de belos tornozelos, Ondeia, Praia, a bem-coroada Rainhamarina, Glaucapartilha sorridente, Travessia, Reúne-gente, Reúne-bem, Rainha-das-gentes, Multi-sagaz, Sagacidade, Rainha-solvente, Pastora de amável talhe e perfeita beleza, Arenosa de gracioso corpo, divina Equestre, llhoa, Escolta, Preceitora, Previdência e Infalível que do pai imortal tem o espírito.

Estas nasceram do irrepreensível Nereu, cinqüenta virgens, sábias de ações irrepreensíveis.

Espanto à filha do Oceano de profundo fluir desposou, Ambarina. Ela pariu ligeira Íris e Harpias de belos cabelos: Procela e Alígera que a pássaros e rajadas de vento acompanham com asas ligeiras, pois no abismo do ar se lançam.

De Fórcis, Ceto gerou as Velhas de belas faces, grisalhas de nascença, apelidam-nas Velhas Deuses imortais e homens caminhantes da terra:

Penfredo de véu perfeito e Ênio de véu açafrão.

Gerou Górgonas que habitam além do ínclito Oceano os confins da noite (onde as Hespérides cantoras):

Esteno, Euríale e Medusa que sofreu o funesto, era mortal, as outras imortais e sem velhice ambas, mas com ela deitou-se o Crina-preta

no macio prado entre flores de primavera.

Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço, surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso; tem este nome porque ao pé das águas do Oceano nasceu, o outro com o gládio de ouro nas mãos, voando ele abandonou a terra mãe de rebanhos e foi aos imortais e habita o palácio de Zeus, portador de trovão e relâmpago de Zeus sábio.

Aurigládio gerou Gerioneu de três cabeças unindo-se a Belaflui virgem do ínclito Oceano.

E a Gerioneu matou-o a força de Heracles perto dos bois sinuosos na circunfluída Eritéia no dia em que tangeria os bois de ampla testa

para Tirinto sagrada após atravessar o Oceano após matar Ortro e o vaqueiro Eurítion no nevoento estábulo além do ínclito Oceano.

Ela pariu outro incombatível prodígio nem par a homens mortais nem a Deuses imortais numa gruta cava: divina Víbora de ânimo cruel,

semininfa de olhos vivos e belas faces e prodigiosa semi-serpente terrível e enorme, cambiante carnívoro sob covil na divina terra

Aí sua gruta lá embaixo está sob côncava pedra longe dos Deuses imortais e dos homens mortais, aí lhe deram os Deuses habitar ínclito palácio.

Em Árimos sob o chão reteve-se a lúgubre Víbora ninfa imortal e sem velhice para sempre.

É fama que com ela Tífon uniu-se em amor, terrível soberbo sem lei com a virgem de olhos vivos.

Ela fecundada pariu crias de ânimo cruel.

Gerou primeiro Ortro, cão de Gerioneu.

Depois pariu o incombatível e não nomeável Cérbero carnívoro, cão de brônzea voz do Hades, de cinquenta cabeças, impudente e cruel.

A seguir gerou Hidra, sábia do que é funesto, e em Lerna nutriu-a a Deusa de alvos braços Hera por imenso rancor contra a força de Heracles; matou-a o filho de Zeus com não piedoso bronze, Heracles Anfitrionida, com o dileto de Ares Iolau, por desígnios de Atena apresadora.

Ela pariu a Cabra que sopra irrepelível fogo, a terrível e grande e de pés ligeiros e cruel, tinha três cabeças: uma de leão de olhos rútilos,

outra de cabra, outra de víbora, cruel serpente.

Na frente leão, atrás serpente, no meio cabra, expirando o terrível furor do fogo aceso.

Agarrou-a Pégaso e o bravo Belerofonte.

E ela pariu a funesta Fix, ruína dos cadmeus, emprenhada por Ortro, pariu o Leão de Neméia que Hera a ínclita esposa de Zeus nutriu

e abrigou nas colinas de Neméia, pena dos homens:

aí residindo destruía greis de homens senhor de Treto e Apesanta em Neméia, mas sucumbiu ao vigor da força de Heracles.

Unida a Fórcis em amor, Ceto gerou por fim terrível Serpente que no covil da terra trevosa nas grandes fronteiras guarda maçãs de ouro.

Esta é a geração de Ceto e de Fórcis.


Autor: Hesíodo (Séc. VIII-VII a.C.)
Editado por: nicoladavid

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