Não digais que esgotado seu tesouro

 

Não digais que esgotado seu tesouro,

de assuntos falta, emudeceu a lira;

poderá não haver poetas; mas sempre

haverá poesia.

 

Enquanto as ondas da luz ao beijo

palpitem acesas,

enquanto o sol as desgarradas nuvens

de fogo e ouro vista,

enquanto o ar em seu regaço leve

perfumes e harmonias,

enquanto haja no mundo primavera,

haverá poesia!

 

Enquanto a ciência a descobrir não alcance

as fontes da vida,

e no mar ou no céu haja um abismo

que ao cálculo resista,

enquanto a humanidade sempre avançando

não saiba para onde caminha,

enquanto haja um mistério para o homem,

haverá poesia!

 

Enquanto se sinta que se ri a alma,

sem que os lábios se riam,

enquanto se chore, sem que o pranto acuda

a nublar a pupila;

enquanto o coração e a cabeça

baralhando prossigam,

enquanto haja esperanças e memórias,

haverá poesia!

 

Enquanto haja olhos que reflitam

outros olhos que os mirem,

enquanto responda o lábio suspirando

ao lábio que suspira,

enquanto sentir-se possam em um beijo

duas almas confundidas,

enquanto exista uma mulher formosa,

haverá poesia!

 

Autor: Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870)
Editado por: nicoladavid

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