"Farei um poema, tenho sono."


Farei um poema, tenho sono.

Ao sol caminho e me abandono.

Donas decretam de um mau trono

e eu sei bem quais

que os amores de cavaleiro

são imortais.

 

Mas só é pecado mortal

não amar cavaleiro leal;

amar padres é que é total

aberração

que deveria queimar donas

com um tição.

 

Por Auvergne e Limousin

andava eu, pobre de mim;

topei a mulher de Guari

e de Bernardo;

e simplesmente me saudaram

por S. Leonardo.

 

Disse uma com seu som latino:

“Salve-o Deus, senhor peregrino!

Tendes o ar de um homem fino,

se não me engana,

e por demais vemos no mundo

gente insana”.

 

Agora ouvireis o que eu lhe disse:

Nem chus nem bus que ali se ouvisse,

“ferro” ou “fuste”, ou qualquer tolice.

Só disse então:

“Babariol babariol

babarião”.

 

“Mana”  ̶  a Ermezinda diz Inês  ̶

“cá temos o nosso freguês!”

Por Deus, juntemo-nos os três

sem nenhum medo;

se é mudo ninguém saberá

nosso segredo.

 

Logo me cobriu com o manto,

levou-me ao quarto, o fogo a um canto;

sabei como foi bom, oh, quanto!

Boa era a casa,

e com prazer me acalentei

com aquela brasa.

 

Serviram-me capões depois

e  ̶  sabei  ̶  comi mais de dois.

Sem criados, comemos pois

os três somente;

branco era o pão, muita pimenta,

vinho excelente.

 

“Mana, se este homem não nos fala

e só por esperto se cala

é coisa que há que prová-la

urgentemente

com o gato pardo que fará

falar quem mente”.

 

Buscou Inês o bicho atroz,

enorme, com o bigode aos nós.

Quando o vi perto de nós,

tive arrepios;

por pouco não perdi o alento

e os meus brios.

 

Já bem bebido e bem comido

tirei a roupa a seu pedido,

foram-se ao gato enraivecido,

essa má rês,

e uma o passou nas minhas costas

até os pés.

 

Pegou no rabo de repente

puxou-o bem, a indecente.

Fiquei todo arranhado e doente

naquele dia;

mas nem que estivesse a morrer

me queixaria.

 

“Mana”  ̶  Inês disse a Ermesinda  ̶ 

“é mudo, a nossa prova é finda.

Cada qual trate de estar linda

para o prazer”.

Oito dias permaneci

ali a arder.

 

Tanto as fodi! Darei do coito

A conta: cento e oitenta e oito.

Quase rompi por muito afoito

cintos e arneses

e não direi quanto por isso

sofri revezes.

 

Monet, parte amanhã daqui;

este poema que escrevi

darás à mulher de Guari

e de Bernardo.

Diz-lhes que por meu amor matem

o gato pardo.


Autor: Guilherme IX de Poitieres (Séc. IX)
Editado por: nicoladavid


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