"Saudades do Céu"

        Ó mãe, quem semeou tantas estrelas

Nesse abismo que estás a contemplar?
Quem deu às ondas, que me inspiram medo,
As pérolas que tens no teu colar?

Seria aquele Deus cujos decretos

Nos roubaram meu pai e meus irmãos,
E para quem de joelhos sobre o leito
Ergo ao deitar-me as pequeninas mãos?

«Foi esse, foi! Vê tu como ele é grande,
Que tantos astros espalhou nos céus!
Que tantas jóias escondeu nos mares!

 Vê tu como ele é grande, aquele Deus!»

Ó mãe, que linda noite! Em noites destas
Eu sinto os anjos sobre mim passar:

Quem me dera também as asas puras
Que os voos sustentam pelo ar! -

Estremeceu a mãe. Depois, convulsa,
Ao palpitante seio o filho uniu;

Rebentaram-lhe as lágrimas dos olhos,

E o menino a cismar nem mesmo as viu.

Nessa noite, ao deitar-se, o belo infante
Ergueu de novo as pequeninas mãos,

Mas quando o sol lhe penetrou no quarto,
Tinha partido em busca dos irmãos!

  

Autor: Guilherme Braga (1845-1874)
Editado por: nicoladavid

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