"Canção Perdida"

Hálitos de lilás, de violeta e de opala,
Roxas macerações de dor e de agonia,

O campo, anoitecendo e adormecendo, exala...

 

Triste, canta uma voz na síncope do dia:

 

Alguém de mim se não lembra
N as terras de além do mar...
Ó morte, dava-te a vida

 Se tu lha fosses levar!

 

Ó morte, dava-te a vida
Se tu lha fosses levar!

 

Com o beijo do sol na face cadavérica,
Beijo que a morte esvai em palidez algente,
Eis a Lua a boiar sonâmbula e quimérica...

 

Doce, canta uma voz melancolicamente:

 

O meu amor escondi-o

Numa cova ao pé do mar...
Morre o amor, vive a saudade...
Morre o sol, olha o luar!

 

Morre o amor, vive a saudade...
Morre o sol, olha o luar!

 

Lactescente a neblina pálida flutua,
Diluindo, evaporando os montes de granito
Em colossos de sonho, extasiados de lua...

 

Flébil, chora uma voz no letargo infinito:

 

Quem dá ais, ó rouxinol,
para as bandas do mar?
E o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!

 

E o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!

 

A Lua enorme, a Lua argêntea, a Lua calma
Imponderalizou a natureza inteira,
Descondensou-a em fluido e embebeu-a em alma.

 

Triste, expira uma voz na canção derradeira:

 

Ó meu amor, dorme, dorme
N a areia fina do mar,

Que em antes da estrela de alva
Contigo me irei deitar!

 

Que em antes da estrela de alva
Contigo me irei deitar!

 

 

 

Autor: Guerra Junqueiro (1850-1923)
Editado por: nicoladavid

Não esqueça ligar o som.

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