Aos Simples


Ó almas que viveis puras, imaculadas,

Na torre de luar da graça e da ilusão,

Vós que inda conservais, intactas, perfumadas,

As rosas para nós há tanto desfolhadas

Na aridez sepulcral do nosso coração;

Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,

Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas,

Da luz, olhar de Deus, da luz, benção d'amor,

Que faz rir um nectário ao pé de cada abelha,

E faz cantar um ninho ao pé de cada flor;

Almas, onde resplende, almas onde se espelha

A candura inocente e a bondade cristã,

Como um céu d'Abril o arco da aliança,

Como num lago azul a estrela da manhã;

Almas, urnas de fé, de caridade e esp'rança,

Vasos d'ouro contendo aberto um lírio santo,

Um lírio imorredouro, um lírio alabastrino,

Que os anjos do Senhor vêm orvalhar com pranto,

E a piedade florir com seu clarão divino;

Almas que atravessais o lodo da existência,

Este lodo perverso, iníquo, envenenado,

Levando sobre a fonte o esplendor da inocência,

Calcando sob os pés o dragão do pecado;

Benditas sejas vós, almas que est'alma adora,

Almas cheias de paz, humildade e alegria,

Para quem a consciência é o sol de toda a hora,

Para quem a virtude é o pão de cada dia!

Sois como a luz que doura as pedras dum monturo,

Ficando sempre branca a sorrir e a cantar;

E tudo quanto a mim há de belo ou de puro,

- Desde a esmola que dou à prece que eu murmuro

É vosso: fostes vós o meu primeiro altar,

Lá da minha distante e encantadora infância,

Desse ninho d'amor e saudade sem fim,

Chega-me ainda a vossa angélica fragância

Como uma harpa eólia a cantar a distância,

Como um véu branco ao longe inda a acenar por mim!

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Minha mãe, minha mãe! Ai que saudade imensa,

Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.

Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares

Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,

Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.

Era a hora em que já sobre o feno das eiras

Dormia quieto e manso o impávido lebreu.

Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,

E a Lua branca, além, por entre as oliveiras,

Como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!

E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,

Vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,

Eu balbuciava a minha infantil oração,

Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento

Que mandasse um alívio a cada sofrimento,

Que mandasse uma estrela a cada escuridão.

Por todos eu orava e por todos pedia.

Pelos mortos no horror da terra negra e fria,

Por todas as paixões e por todas as mágoas

Pelos míseros que entre os uivos das procelas

Vão em noite sem lua e num barco sem velas

Errantes através do turbilhão das águas.

O meu coração puro, imaculado e santo

Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,

Para toda a nudez um pano do seu manto,

Para toda a miséria o orvalho do seu pranto

E para todo o crime o seu perdão de Pai!

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A minha mãe faltou-me era eu pequenino,

Mas da sua piedade o fulgor diamantino

Ficou sempre abençoando a minha vida inteira,

mo junto dum leão um sorriso divino,

Como sobre uma for um ramo de oliveira!               

 

Ó crentes, como vós, no íntimo do peito

Abrigo a mesma crença e guardo o mesmo ideal.

O horizonte é infinito e o olhar humano é estreito:

Creio que Deus é eterno e que a alma é imortal.

 

Toda a alma é clarão e todo o corpo é lama.

Quando a lama apodrece inda o clarão cintila:

Tirai o corpo - e fica uma língua de chama

Tirai a alma - e resta um fragmento d'argila.

 

E para onde vai esse clarão? Mistério

Não sei Mas sei que sempre há-de arder e brilhar,

Quer tivesse incendiado o crânio de Tibério,

Quer tivesse aureolado a fronte de Joana d'Arc.

 

Sim, creio que depois do derradeiro sono

Há-de haver uma treva e há-de haver uma luz

Para o vício que morre ovante sobre um trono,

Para o santo que expira inerme numa cruz.

 

Tenho uma crença firme, uma crença robusta,

Num Deus que há-de guardar por sua própria mão

Numa jaula de ferro a alma de Locusta,

Num relicário d'ouro a alma de Platão.

 

Mas também acredito, embora isso vos pese,

E me julgueis talvez o maior dos ateus,

Que no Universo inteiro ha uma só diocese

E uma só catedral com um só bispo - Deus.

 

E muito embora a vossa igreja se contriste

E a excomunhão papal nos abrase e destrua,

A análise é feroz como uma lança em riste

E a verdade cruel como uma espada nua,

 

Cultos, religiões, bíblias, dogmas, assombros,

São como a cinza vã que sepultou Pompeia.

Exumemos a fé desse montão de escombros,

Desentulhemos Deus dessa aluvião de areia.

 

E um dia a humanidade inteira, oceano em calma,

Há-de fazer, na mesma aspiração reunida,

Da razão e da fé os dois olhos da alma,

Da verdade e da crença os dois pólos da vida.

 

A crença é como o luar que nas trevas flutua;

A razão é do Céu o esplêndido farol:

Para a noite da morte é que Deus nos deu Lua

Para o dia da vida é que Deus fez o Sol.
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Mas, ai!, eu compreendo os martírios secretos

Do pobre camponês, já quase secular,

Que vê tombar por terra o seu ninho de afectos,

A casa onde nasceu o pai, e onde seus netos

Lhe fechariam, morto, o escurecido olhar.

Compreendo o pavor e a lividez tremente

De quem em noite má, caliginosa e fria

Atravessa a montanha à luz de um facho ardente

E uma rajada vem alucinadamente

Apagar-lho com asa atlética e sombria,

Deixando-o fulminado e quase sem sentidos

A ouvir o ulular das feras e os bramidos

Do ciclone, que explui rouco do sorvedouro,

E se enrosca furioso aos plátanos partidos

A estrangulá-los como uma jibóia um touro.

Compreendo a agonia, o desespero insano

Do náufrago na rocha, entre o abismo do oceano,

Vendo rolar, rugir os glaucos vagalhões

Como uma cordilheira hercúlea de montanhas,

Com jaulas colossais de bronze nas entranhas,

E um domador lá dentro a chicotear trovões.

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 vosso facho, o vosso abrigo, o vosso porto,

É umDeus  que para nós há muito que está morto,

E que inda imaginais no entanto imortal.

Vivei e adormecei nessa crença ilusória,

Já não podeis transpor os mil anos da história

Que vão do vosso credo absurdo ao nosso ideal.

Vivei e adormecei nessa ilusão sagrada,

Fitando até morrer os olhos de Jesus,

Como o efémero vão que dura um quase nada,

Que nasce de manhã num raio de alvorada,

E expira ao pôr do Sol noutro raio de luz.

Eu bem sei que essa crença ignorante e sincera,

Não é a que ilumina as bandas do Porvir.

Mas vós sois o Passado, e a crença é como a hera

Que sustenta e dá ainda um ar de Primavera

Aos velhos torreões góticos a cair.

Sim, essa crença é um erro, uma ilusão, é certo;

Mas triste de quem vai pelo areal deserto

Vagabundo, esfomeado e nu como Caim,

Sem nunca ver ao longe os palácios radiantes

Duma cidade d'ouro e mármore e diamantes

No quimérico azul dessa amplidão sem fim!

Quem há-de arrancar pois do seu piedoso engaste

O vosso ingénuo ideal, ó trémulos velhinhos,

Se a quimera é uma rosa e a existência uma haste,

Rosa cheia d'aroma e haste cheia de espinhos!

Quem vos há-de cortar a flor da vossa esp'rança,

Quem vos há-de apagar a angélica visão,

Se essa luz para vós é como uma criança

Que guia numa estrada um cego pela mão!

Quem vos há-de acordar desse sonho encantado?!

Quem vos há-de mostrar a evidência cruel?!

Ah!, deixemos a ave ao ramo já quebrado,

E deixemos fazer ao enxame dourado

No tronco que está morto o seu favo de mel!

Ó velhos aldeões, exaustos de fadiga,

Que andais de sol a sol na terra a mourejar,

Roubar-vos de voss'alma a vossa crença antiga

Seria como quem roubasse a uma mendiga

As três achas que leva à noite para o lar!

Oh, não! Guardai-a bem essa crença d'outrora;

É ela quem vos dá a paz benigna e santa,

Como a paz dum vergel inundado d'aurora,

Onde o trabalho ri e onde a miséria canta.
Guardai-a, sim, guardai! E quando a morte em breve

Vos entre na choupana esquálida e feroz,

A agonia será bem rápida e leve,

Porque um anjo de Deus, mais alvo que a neve,

Há-de estender sorrindo as asas sobre vós.

E vós conhecereis em seu olhar materno

Que é o anjo que embalou vosso sono infantil

E que hoje vem do Céu mandado pelo Eterno

Para sorrir na morte ao vosso branco Inverno,

Como sorriu no berço ao vosso claro Abril.

E ao pender-vos gelada a fronte alabastrina

Irá levar a Deus o vosso coração

Tão manso e virginal, tão novo e tão perfeito,

Que Deus há-de beijá-lo e aquecê-lo ao peito,

Como se acaso fosse uma pomba divina,

Que viesse cair-lhe, exânime, na mão!


Autor: Guerra Junqueiro (1850-1923) in “A Velhice do Padre Eterno”
Editado por: nicoladavid


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