Se muito sofri já, não me perguntes

 

Se muito sofri já, se ainda sofro

Por teu amor?!

Não me perguntes! que do inferno a vida

Não é pior! ...

 

Eu! vegetar da terra entre os felizes!

Que faço aqui?

Sonhos de amor, de glória, — lá se foram

Atrás de ti!

 

A ver se encontro d'esperança um raio

Olho em redor,

E nada vejo, e mais profunda sinto

No peito a dor!

 

Que faço aqui? Dias cansados, anos

Sem fim — durar!

Depois que te perdi, viver ainda,

Viver! penar! ...

 

Eu, não! Quem for feliz que preze a vida,

Tema perdê-la!

Por mim não tenho horror, nem tédio à morte,

Clamo por ela!

 

Bendita seja pois a que mandada

Me for — por Deus.

Matar-me, não; que quero ver-te ainda

Feliz nos céus!

 

Mas no pego da dor, em que me abismo?

— Nesta aflição

Negra como a do cego que na estrada

Esmola o pão!

 

Como a do viajor que pelas trevas

Sem tino vai,

E, errado o trilho, se embrenhou nas matas,

Nem delas sai!

 

Neste viver sofrendo, errante, louco,

Mísero Jó,

Que amigos e inimigos à porfia

Pungem sem dó!

 

Às vezes, da amargura no remanso,

Ao Criador

Minha alma eleva cânticos de graças,

Hinos de amor!

 

Que se estivesse em mim renascer hoje,

Sofrer o que sofri...

Eu quisera viver para ainda amar-te

E amado ser por ti!

Autor: Gonçalves Dias (1823-1864)
Editado por: nicoladavid

 
 
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