Oh! Que acordar!

 

Se o que somos, se o que temos sofrido

Não fosse mais que um sonho!

A despedida sem adeus, a ausência,

O desterro medonho!

 

O viver sem família, sem ventura,

Sem esperanças mais...

Este penar eterno, este sofrer sem crime,

Este descrer dos mais;

 

E aquele ver-te qual t'eu vi, co'o pranto

Nos olhos a brilhar,

E nos lábios sorrisos porque vias

Qual era o meu penar!

 

Se esse fingir que a vida te esgotava

Do pobre coração,

Se tudo fosse um pesadelo horrível,

Um sonho vão;

 

Se outra vez amanhã meiga sorrindo

Me viesses contar

Teu sonho mau, durante a noite, e o ledo

Venturoso acordar!

 

E que de ver-te se me fosse d'alma

D'angústia o sentimento,

Como visão noturna, como um traço n'água,

Nuvem que tange o vento!

 

Se em nossos peitos desses caos surgissem

Os êxtases de amor,

Como aves mil, que no romper do dia

Voam de um ramo em flor!

 

E a vida entre nós franca! o amor possível,

E o paraíso ali!

Oh! que acordar!... Venham dizer-me agora

depois do que sofri,

 

Que o mundo é vasto, que não devo amar-te,

Que renuncie a ti!

Fazei-o vós, se sois capaz de tanto...

Não o peçais de mim.

 

Qual o horrendo porvir que após nos guarda

Não o sabeis, eu sei!

É ser morto por dentro, é dizer d'alma

Jamais feliz serei!

 

É criar tédio à vida! — um só receio

Ter-se — que seja eterno

Este viver, este descrer de tudo,

Este penar do inferno!

Autor: Gonçalves Dias (1823-1864)
Editado por: nicoladavid

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