As Velhas Negras

 

As velhas negras, coitadas,

Ao longe estão assentadas

Do batuque folgazão.

Pulam crioulas faceiras

Em derredor da fogueira

E das pipas de alcatrão.

 

Na floresta rumorosa

Esparge a lua formosa

A clara luz tropical.

Tremulam pirilampos

No verde-escuro dos campos

E nos côncavos do Vale.

 

Que noite de paz! Que noite!

Não se ouve o estalar do açoite,

Nem as pragas do feitor!

E as pobres negras, coitadas,

Pendem as frontes cansadas

Num letárgico torpor!

 

E cismam: outrora, e dantes

Havia também descantes,

E o tempo era tão feliz!

Ai que profunda saudade

Da vida, da mocidade

Nas matas de seu país!

 

E ante o seu olhar vazio

De esperanças, frio, frio

Como um véu de viuvez,

Ressurge e chora o passado

— Pobre ninho abandonado

Que a neve alagou, desfez...

 

E pensam nos seus amores

Efémeros como as flores

Que o sol queima no sertão...

Os filhos quando crescidos,

Foram levados, vendidos,

E ninguém sabe onde estão.

 

Conheceram muito dono:

Embalaram tanto sono

De tanta sinhá gentil!

Foram mucambas amadas.

E agora inúteis, curvadas,

Numa velhice imbecil!

 

No entanto o luar de prata

Envolve a colina e a mata

E os cafezais em redor!

E os negros, mostrando os dentes,

Saltam lépidos, contentes,

No batuque estrugidor.

 

No espaçosos e amplo terreiro

A filha do Fazendeiro,

A sinhá sentimental,

Ouve um primo recém-vindo,

Que lhe narra o poema infindo

Das noites de Portugal.

 

E ela avista, entre sorrisos,

De uns longínquos paraísos

A tentadora visão...

No entanto as velhas, coitadas,

Cismam ao longe assentadas

Do batuque folgazão...


Autor: Gonçalves Crespo (1846 - 1883)
Editado por: nicoladavid

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