O Eco

 

Não há mais bela música  
Que o ruído da maçaneta da porta 
Quando meu filho volta para a casa.

Volta da rua, da vasta noite, da madrugada de estranhas vozes 
E o ruído da maçaneta 
E o gemer do trinco 
O bater da porta que novamente se fecha 
O tilintar inconfundível do molho de chaves 
são um doce acalanto, uma suave cantiga de ninar. 

Só assim fecho os olhos 
Posso afinal dormir e descansar.

Oh! A longa espera, 
A negra ausência 
As historias de acidentes e assaltos 
Que só a noite como ninguém sabe contar! 
Oh! Os presságios e pesadelos, 
O eco dos passos na calçada  
A voz dos bêbados na rua 
E o longo apito do guarda 
Medindo a madrugada, 
E os cães, uivando na distância 
E o grito lancinante da ambulância!

E o coração descompassado a pressentir 
E a martelar 
Na arritmia do relógio do meu quarto 
Esquadrinhando a noite e seus mistérios.

Nisso, na sala que se cala, estala 
a gargalhada jovem 
da maçaneta que canta 
a festiva cantiga do retorno. 
E a sua voz engole a noite imensa 
Como todos os ruídos secundários. 
-Oh! Os címbalos do trinco 
e os clarins da porta que se escancara 
e os guizos das muitas chaves que se abraçam 
e os festival dos passos que se ganham a escada! 
     
Nem as vozes da orquestra 
E o tilintar de copos 
E a mansa canção da chuva no telhado 
Podem sequer se comparar 
Ao som da maçaneta que sorri 
Quando meu filho volta.

Que ele retorne sempre são e salvo  
Marinheiro depois da tempestade 
A sorrir e cantar. 
E que na porta a maçaneta cante 
A festiva canção do seu retorno  
Que soa pra mim 
Como suave cantiga de ninar.

Só assim só assim meu coração se aquieta 
Posso afinal dormir e descansar. 

Autor: Gióia Júnior (1931-1996)
Editado por: nicoladavid

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