Lengalenga

 

Se tens d’oiro cheia a tulha,

Bem como a adega, aliás,

Pelo buraco da agulha,

Tu, rico, não passarás.

 

Se andas com outros à bulha

(vizinho, adulto ou rapaz),

Pelo buraco da agulha,

Tu, bruto, não passarás.

 

Se vendes carvão por hulha

E em vez de uísque aguarrás,

Pelo buraco da agulha,

Tu, ladrão, não passarás.

 

Se no tempo da debulha

Enganas o capataz,

Pelo buraco da agulha,

Tu, falso, não passarás.

 

Se quando a pombinha arrulha

Ternurinhas não te faz.

Pelo buraco da agulha,

Tu, cruel, não passarás.

 

Se o mar inquieto marulha

E escutá-lo não te apraz,

Pelo buraco da agulha,

Tu, surdo, não passarás.

 

Se nada tens... nem faúlha...

Mas com Deus vives em paz,

Pelo buraco da agulha,

Tu, pobre, tu passarás.

Autor: Gentil Valadares (1916-2006) - in Orgia de Sons
Editado por: nicoladavid

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