Deuladeu

 

Eu canto a ilustre dama Deuladeu,

Notável por ter sido a redentora

Da vila de Monção, onde nasceu,

Um dia se casou e foi senhora

De Vasco Gomes, da família Abreu,

Governador ao tempo em que tal fora...

Eu canto dessa dama o feito egrégio,

Se milagre não foi ou sortilégio.

 

Do Rio Minho, Ninfas, vinde agora

A tuba me inspirar no lábio ardente;

Como trovão, por noite que apavora,

Levai a minha voz a toda a gente,

Levai-a longe, pela Pátria fora,

Se d’arte e génio me fazeis presente.

Ó Ninfas, acedei ao meu desejo

Qual Camões fizeram as do Tejo.

 

Quem sacrifica a vida a tais empresas

Contrai, é certo, a ingratidão, a inveja...

Mas não importam, não, essas vilezas

A quem tem alma, o forte não fraqueja,

E as luzes da Verdade, sempre acesas,

Justiça fazem, tarde embora seja.

Guiai-me, pois, ó Ninfas, nesta ideia:

Meus versos, imortais, o mundo os leia.

 

Patrícias portuguesas, descendentes

Da nobre antepassada Deuladeu,

Estas estrofes, castas, rescendentes,

A vós, e só a vós, dedico-as eu.

É água da mais pura das nascentes

E sempre refrescou quem a bebeu,

No entanto perdoai se, por acaso,

Achardes impureza nalgum verso...

 

Reinava D. Fernando em Portugal,

Formoso rei, mas inconstante e altivo:

Origem deu a luta nacional,

Por mor de cortesã o ter cativo...

Depois, contra Castela, por seu mal,

Moveu três guerras sem nenhum motivo.

Foi na primeira delas que se deu

O feito da heroína Deuladeu.

Além do Rio Minho, na Galiza,

Dão as trombetas o sinal de guerra,

E já na oposta margem se divisa

O exército invasor descendo a serra,

Grandes bandeiras flutuando à brisa,

Corcéis febris, erguendo o pó da terra,

E escudos, achas, elmos cintilantes,

Por entre catapultas e montantes.

 

Monção correu às portas, destemida,

Dobrou as sentinelas e os cuidados,

Dispondo-se a vender pesada a vida

Àquela turbamulta de soldados,

Pois ali dentro já ninguém duvida

De serem os seus muros atacados.

Afiam as espadas os guerreiros:

“Antes morrer... que deles prisioneiros.”

 

D. Vasco Gomes, capitão valente,

Governador da praça alvoroçada,

Não vem mostrar-se agora à sua gente

Por ter saído há dias de jornada,

Razão de se encontrar da mesma ausente,

O que mais traz a gente amedrontada,

Mas Deuladeu Martins, a sua esposa,

A todos encoraja e não repousa.

 

O exército, por fim, transpõe o rio

E logo assalta o forte monçanense.

Nas barbacãs lutou duro e bravio,

Mas tanta resistência não a vence!

Furtou-se, derrotado, ao desafio:

Render a praça à fome talvez pense...

Pois, para além do fosso e das vigias,

A cerca, cauteloso, vários dias.

 

(Monção, tu és a terra dos extremos:

No extremo do País e de Castela,

No extremo da miséria em que te vemos

A recordar-te dantes, farta e bela,

No tempo em que tu, contra os blasfemos,

Da Pátria foste heróica sentinela!)

“Muy nobre e leal vila de Monção”:

Teus filhos, valorosos, onde estão?!

 

Alguns tombaram mortos nas ameias...

Nem a metade existe ao fim duns dias!

Nas pedras das muralhas sulcam veias

De sangue fresco ainda das sangrias...

As coisas se entremostram muito feias

Devido à falta de homens, de energias...

Porém a todos o que mais consome

É vir rondá-los... Esse abutre, a Fome!

 

Não tinham, com efeito, mantimentos.

O pão não era pão mas sim mistura

Dos mais heterogéneos elementos,

Farinha com farelo e serradura...

E esses combates, por de mais violentos,

Exigem, claro está, musculatura.

Por isso foi que Deuladeu Martins

Pensou o modo de atingir seus fins:

 

Dos últimos punhados de farinha

Fez alguns pães, que foi levar ao forno;

Cozidos, prontos, pôs-se na beirinha

Do revelim, para os mostrar em torno;

Gritou depois, com quanta força tinha,

Arremessando o pão cheiroso e morno:

“Ó gente que supõe que nos rendemos,

Tomai p’ra vós, que nós fartura temos”.

 

Em face dessa estranha portuguesa

O capitão das tropas de Castela –

Que ouviu essas palavras com surpresa

E viu nas suas mãos a obra dela –,

Imaginou de pronto, com certeza,

Ter o celeiro cheio a cidadela,

E, porque o cerco não valia nada,

Às tropas ordenou a retirada.

 

Foi isto há muitos séculos atrás...

Espanha e Portugal, hoje no mundo,

Progridem, lado a lado, em boa paz,

Unidos pelo afecto mais profundo,

E amparam-se, por bem, nas horas más

Com as riquezas do seu chão fecundo...

Louvado seja Deus por tais milagres

De lá dos Pirinéus ao fim de Sagres!

Autor: Gentil Valadares (1916-2006)
Editado por: nicoladavid

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