Caipira

 

Não era a estampa do cavalo corso...

Mas digno, sim, de imperador seu dorso!

 

Alguém que o visse, examinasse um dia,

De raça apuradíssima o diria.

 

“Compõe-te... Vá!” Mais alto que o vulgar

Sabia humildemente ajoelhar.

 

Montado, enfim, era o tufão na estrada,

Esguio como a lebre levantada.

 

Bastava ter presente as suas linhas

À semelhança de asas de andorinhas...

 

Cegou e foi vendido. Que desgosto !

E as lágrimas corriam-me no rosto.

 

E, para ser maior o meu pesar,

Haviam os ciganos de o levar!

 

CAIPIRA!...

 

Não mais hei-de afagar-te com palmadas

Desde o pescoço às ancas bem tratadas!

 

Nem afrouxar-te volto o peitoral

Para que fujas livre no azinhal!

 

Jamais!... Tudo passou!... Ai que saudades

Eu tenho desses tempos nas herdades!

 

A corta-mato por covais e ramos

De que a galope solto nos furtamos...

 

E, pela fita branca dos caminhos,

A música das águas e dos ninhos...

 

E os cães, raivosos, a ladrar de perto

(Deixasses tu, mordiam-nos por certo!)

 

E as moças comentando: “Levam asas!”

Fugindo a resguardar-se junto às casas...

 

E o teu xairel de listras... e eu na sela...

E as damas a acenar-nos da janela...

 

E eu, enfim, nos estribos bem firmado,

Tirando o meu chapéu, enamorado...

 

E gente a olhar: embasbacada a vemos,

A enaltecer a vista que fazemos...

 

E tu, nervoso, em passos de toirada,

Tocando castanholas na calçada...

 

..............................................................

Autor: Gentil Valadares (1916-2006) - in Luar ao Sol
Editado por: nicoladavid
Comments