A Bocage

 

Caríssimo Bocage, quando leio

Teus versos de harmonia inigualada,

Ao pé dos quais os meus são devaneio.

Despidas frases que não valem nada.

 

Invejo o fogo que dos céus te veio,

Invejo a tua ideia iluminada,

Invejo a tua voz que é um gorjeio

De rouxinol carpindo à namorada!...

 

Ao meditar depois na desventura

Que a vida te frustrou, virou do avesso,

A bem dizer do berço à sepultura,

 

Já não te invejo os dons de tanto apreço:

Antes vulgar eu seja, sem cultura,

Do que pagar a glória por tal preço.

Autor: Gentil Valadares (1916-2006) - in Flauta Enamorada
Editado por: nicoladavid

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