Cume

 

É a hora da tarde, essa que põe

seu sangue nas montanhas.

 

E nesta hora alguém está sofrendo;

uma perde, angustiada,

bem neste entardecer o único peito

contra o qual se estreitava.

 

Há algum coração em que o poente

Mergulha aquele cume ensangüentado.

 

O vale já sombreia

e se enche de calma.

Mas, lá do fundo, vê que se incendeia

de rubor a montanha.

 

A esta hora ponho-me a cantar

minha eterna canção atribulada.

 

Sou eu que estou batendo

o cume de escarlate?

 

Ponho em meu coração a mão e o sinto

a verter quando bate.


Autor: Gabriela Mistral (1889-1957)

Editado por: nicoladavid

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