Ceras Eternas

 

Ah! nunca mais conhecerá tua boca
a vergonha do beijo que espumava
concupiscência como espessa lava!

Voltam a ser duas pétalas nascentes
impregnadas de novo mel, os lábios
que sonhei inocentes.

Ah! nunca mais conhecerão teus braços
o mundo horrível que em meus dias pôs
escuro horror: o nó de um outro abraço.

Pelo sossego puro
sob a terra ficaram estendidos
já, Deus meu! Seguros.

Agora cegas, nunca mais tuas pupilas
terão um rosto impudente e rubro
de lascívia, nos seus espelhos refletidos!

Benditas ceras fortes,
ceras geladas, ceras eternais
e duras, da morte!

Bendito toque sábio
com que selaram olhos, com que amarraram braços,
com que juntaram lábios!

Benditas ceras!
já não brasa de beijos luxuriosos
que vos quebrem, desgastem ou derretam!

Autor: Gabriela Mistral (1889-1957)

Editado por: nicoladavid

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