Da Serra d’Arrabida

 

Do meio desta Serra derramando

A saudosa vista nas salgadas

Águas humildes, quando e quando inchadas

Conforme a qual o tempo vai soprando,

Estou comigo só considerando,

Donde foram parar cousas passadas,

E donde irão presentes mal fundadas,

Que pelos mesmos passos vão passando.

Oh! qual se representa nesta parte

Aquela derradeira hora da vida

Tão devida, tão certa, e tão incerta!

Em quantas tristes partes se reparte,

Dentro nesta alma minha, entristecida,

A dor, que em tais extremos me desperta!

Autor: Frei Agostinho da Cruz  (1540-1619)
Editado por: nicoladavid

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