A que vindes, Senhor, do Ceu à terra



“A que vindes, Senhor, do Ceu à terra,

Terra que sendo vossa vos enjeita,

E que tanto vos honra e vos respeita,

Que em vos não receber insiste e emperra?

Ah quanta ingratidão nela s’encerra!

Quão mal de vossa vinda se aproveita!

Pois se põe a tomar-vos conta estreita,

Mais brava contra vós, quanto [mais] erra.

E vós de vosso amor puro forçado

As malditas espinhas lhe pisais,

Das quais ainda sendo coroado,

A maldição antiga lhe trocais

Na bênção, que lhe dais crucificado,

Quando morto d’amor, d’amor matais.”


Autor: Frei Agostinho da Cruz  (1540-1619)
Editado por: nicoladavid
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