Quem a Amor serve, quem de Amor procura

 

Quem a Amor serve, quem de Amor procura

A glória de um contente e ledo estado;

Quem por amor quer ter vida segura

E ver ditoso o fim de seu cuidado;

Quem quer em seus serviços ter ventura

E vir por este preço a ser amado,

Por amor sirva, por amor mereça,

Por amor ouse, tema e obedeça.

 

Ponha só nestes meios a esperança

Para alcançar de amor bens de verdade,

Que mal pode ter nele confiança

Quem a vida não der e a liberdade.

Em vão pretende amar, em vão se cansa

Quem não obriga as forças da vontade

À tirana isenção de uma pastora

Que de quantos a vem quer ser senhora.

 

Faça de seu querer merecimento

Sem querer merecer por outra via,

Posto que tenha em posse e pensamento

Mais ovelhas, mais cabras, mais valia.

O que mais lhe convém é sofrimento

Com que vença o poder da fantasia,

Que nenhuma pastora se imagina

Ser menos que fermosa ou que divina.

 

Ouse, porque mil vezes o atrevido

Alcança mais que o cauto e temeroso,

E o que nega o temor quando é devido

Dá um sucesso vil a um venturoso.

Mais vale ficar ousado arrependido,

Que ser fiel amante e vergonhoso,

Pois nenhuma pastora em afeição

Respeita mais amor que ocasião.

 

Tema, porque o que sabe amar melhor,

Melhor teme as mudanças da ventura,

Que não há em mulher seguro amor

Nem ausente afeição de muita dura.

Aprenda mil cautelas do temor

Para o que só na vista se assegura,

Pois quem da vista uma hora só se parte

Ou já não acha amor, ou noutra parte.

 

Obedeça, que enfim nisto se encerra

O merecer, servir, temer e ousar;

E quem conquista amor em justa guerra

Deve só com tais armas pelejar.

Este é o mor poder que tem na terra

Quem quer vontades livres sujeitar;

Sem esta não alcança e não repousa

O que serve, merece, teme e ousa.

Autor: Francisco Rodrigues Lobo (1579-1621)
Editado por: nicoladavid

 

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