Ontem, quando o Sol nasceu

 

Ontem, quando o Sol nasceu,
me pus sobre aquele outeiro,
que a vista me faleceu,
tão triste como o primeiro
que a tristeza conheceu.

Pus estes olhos cansados
no lugar e na ribeira,
nas cabanas e nos gados;
levantei-os de maneira
que estavam d água alagados.

Vi muito gado perdido,
sem pastor, sem pegureiro,
por entre as balsas metido:
aqui, balava um cordeiro,
sem ser da mãe socorrido;

acolá, dava outro balo
a mimosa ovelha branca;
outra jaz morta no valo;
outra, sem poder saltá-lo,
vem entresilhada e manca.

As cabras vão pelo outeiro;
cada qual toma um atalho;
cada qual segue um carreiro;
já não as guarda o rafeiro;
já não nas guia o chocalho.

Já no vale não parece
pastora que o gado leve;
se algum pastor se oferece,
ou sente o mal que padece,
ou teme e sente os que deve.

A terra o gado recebe,
por costume e sem engano;
dá-lhe o de que come e bebe;
não há valado nem sebe,
nem quem o acoime do dano.

Tudo está como deserto;
o mato só se povoa,
e n'aldeia em descoberto,
assim como por acerto
se divisa uma pessoa.

Estão sem gado os currais,
e os pastores sem abrigo;
nas brenhas e pedregais,
moram, como em tempo antigo,
os homens e os animais.

Autor: Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622)
Editado por: nicoladavid

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