Já nasce o belo dia

 

Já nasce o belo dia,

Princípio do verão fermoso e brando,

Que com nova alegria

Estão denunciando

As aves namoradas,

Dos floridos raminhos penduradas.


Já abre a bela Aurora

Com nova luz as portas do Oriente,

E mostra a linda Flora

O prado mais contente,

Vestido de boninas

Aljofradas de gotas cristalinas.

 

Já o sol mais fermoso

Está ferindo as águas prateadas,

E Zéfiro queixoso

Ora as mostra encrespadas

À vista dos penedos,

Ora sobre elas move os arvoredos.

 

De reluzente areia

Se mostra mais fermosa a rica praia,

Cuja riba se arreia

Do álamo e da faia,

Do freixo e do salgueiro,

Do ulmo, da aveleira e do loureiro.

 

Já com rumor profundo

Não soa o Lis nos montes seus vizinhos,

Antes no claro fundo

Mostra os alvos seixinhos

E os peixes que nas veias

Deixam tremendo a sombra nas areias.

 

Já sem nuvens medonhas

Se mostra o céu vestido de outras cores;

Já se ouvem as sanfonas

E frautas dos pastores

Que vão guiando o gado

Pela fragosa serra e pelo prado.

 

Já nas largas campinas

E nas verdes decidas dos outeiros

Ao som das sanfoninas

Cantam os ovelheiros,

Enquanto os gados pastam

As mimosas ervinhas que renascem.

 

Sobre a tenra verdura

Agora os cabritinhos vão saltando,

E sobre a fonte pura

Passa a noite cantando

O rouxinol suave,

Com saudoso acento, agudo e grave.

 

Diana mais fermosa

Sem ventos sobre as águas aparece,

E faz que a noite irosa

Tão clara resplandece

À vista das estrelas

Que se envergonha o sol de inveja delas.

 

Tudo nesta mudança

Também de novo cobra novo estado;

Qual em sua esperança,

E qual em seu cuidado,

Acha contentamento;

Qual melhora na vida o pensamento.

 

Autor: Francisco Rodrigues Lobo (1579-1621)
Editado por: nicoladavid

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