A uma Ausência

 

Sinto-me, sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal que me consome me sustenta,
O bem que entretém me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo se me ausenta,
E o que estou sem ver mais me atormenta;
Alegro-me de ver atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou certo.

Mas, se de confiado desconfio,
É
porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto. 

 

Autor: Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622)
Editado por: nicoladavid

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