Da Noite

 

Deita, ó noite funesta, o negro manto,

Pela aérea e terrena arquitetura,

E influa de teu rosto a pompa escura

Nos medrosos mortais confuso espanto.

 

Do sepultado Febo ao fogo santo

Receba o pardo círio a chama impura,

E expulse a imagem da mortal figura

O mal sofrido horror do eterno pranto.

 

Infunda, pois, teu rosto entristecido

Silêncio infausto em toda a redondeza,

Desperta a treva, o lume adormecido.

 

Alegre eu só, que é tal a natureza

De um tão triste, infeliz como afligido,

Que descansa entre as sombras da tristeza.

Autor: Francisco de Pina Melo (695-1765)
Editado por: nicoladavid

Comments