A um berço com o feitio de uma tumba

 

Já é túmulo o berço, já tristeza

O que foi alegria; escuro norte

Segue a luz e na câmara da morte

Buscam os pulsos a vital proeza.

 

Já na casa da Parca a fortaleza

Dos alentos se expõe; já passaporte

Da morte traz a vida, e desta sorte

Se vão mudando as leis da natureza.

 

Não se admire ninguém. Traça subida

Foi de supremo, angélico conceito

Que altamente nos ânimos retumba;

 

Porque, se tão depressa passa a vida,

Quem pode duvidar que um próprio leito

Pode vir a ser berço e mais ser tumba?

Autor: Francisco de Pina Melo (1695-1765)
Editado por: nicoladavid

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