Nascimento


A minha égua lazã

Teve uma linda cria,

Nascida ante-manhã,

Mal, ao de leve, despontava o dia...

Cá fora

Na placidez da hora enregelada e fria,

Silenciosa e deserta

a terra dormitava.

E pela porta aberta

Da velha estrebaria,

Um hálito de vida se escapava

E, como fumo, manso, se perdia.

Sombras de uma lanterna fraca

Dançavam, ágeis, na parede escura;

E brandamente,

Naquela luz opaca,

Tudo envolvia uma doçura quente.

Sobre a palha doirada,
Enquanto o sol aos poucos
Ia surgindo à porta,
a mãe jazia, agora descansada.
E a dois passos, imóvel e estirada,
A cria parecia ter nascido
Pra logo ficar morta,
O corpo já doído
Do trabalho da vida começada.

Venho assomar-me à porta,
A contemplar o meu amigo dia.
E o campo, todo branco da geada,
Brilha até onde a minha vista alcança...
E, infantilidade,
Ou despropositada poesia,
O nascimento, a hora, a luz do dia,
Dão-me um fecundo amanhecer de esperança.

Autor: Francisco Bugalho (1805-1949)
Editado por: nicoladavid

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