Triunfo da Morte

Dão pois que chegara a hora extrema 
Daquela vida breve gloriosa, 
E o passo incerto de que o mundo treme. 
E viera assisti-la uma virtuosa 
Companhia de donas, essas vivas,
Por ver se a morte pode ser piedosa. 
Estava a bela companha ali reunida 
Só para ver e contemplar o fim a 
Que a todos chega, e nunca se repete; 
Todas eram amigas e vizinhas. 
Dessa loira cabeça, então, a Morte 
Colheu, com sua mão, um áureo cabelo:
E assim cortou do mundo a flor mais bela, 
Não já por ódio, mas por comprovar 
Nas mais sublimes coisas seu poder, 
Que lamentos e prantos derramados 
Foram ali! Enxutos, só os olhos 
Por quem, anos a fio, cantei e ardi! 
E entre tanto suspiro e tanto luto 
Única alegre, tácita se estava, 
Já de seu bem viver colhendo os frutos. 
«Vai-te em paz, verdadeira sem ideia!» 
Diziam, e foi bem, mas não valeu 
Contra a Morte que assim a maltratou.
Que será de outras, se esta ardeu gelando, 
Em poucas noites toda demudada?
Ó esperança humana, cega e falsa! 
Se banharam a terra prantos mil 
Por piedade daquela alma gentil 
Sabe-o quem viu; e julga-o tu, que o escutas. 
À hora prima foi, no sexto dia 
De Abril, que me prendeu e hoje me solta:
Como a Fortuna vai mudando sempre! 
Ninguém já se queixou da escravidão 
Nem da morte, como eu da liberdade 
E da vida, que tenho por sobejas. 
Ao mundo se devia, e, mais, à idade, 
Que eu fosse à frente, pois cheguei primeiro, 
E que ele não perdesse o seu decoro. 
Qual fosse então a dor não se imagina; 
Mal ouso pensar nisso, quanto mais 
Atrever-me a dizê-lo em verso ou rima.
 «Morreu virtude, formosura e graça!» 
As belas damas junto ao casto leito 
Tristes diziam: «Que será de nós? 
Quem verá mais em dama acto perfeito? 
Quem ouvirá o falar, de saber cheio 
E o seu cantar, de angélico deleite?» 
Ao separar-se o espírito do seio 
Que em si tantas virtudes albergava, 
O Céu em torno tinha serenado. 
Nenhum dos adversários se atreveu 
A aparecer-lhe com medonho aspeito 
Enquanto a Morte não cessou o assalto. 
Quando, deposto o pranto e o temor, 
No belo rosto se afirmavam todas, 
Por desesperação enfim tranquilas, 
Não como chama que a rajada extingue, 
Mas antes que a si mesma se consome, 
Partiu do mundo em paz a-alma contente, 
À guisa de um suave e claro lume 
Ao qual falece aos poucos alimento, 
Mantendo, até ao fim o brando jeito. 
Pálida não, mas alva como a neve
Que sem vento no outeiro ameno cai 
Dir-se-ia repousar, de fatigada: 
Como um suave dormir nos belos olhos
— sendo já dela o espírito apartado — 
Era isso que morrer os loucos chama: 
Bela era a Morte, no seu rosto belo.


Autor: Francesco Petrarca (1304-1374)
Editado por: nicoladavid

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