Secretum



LIVRO II

Agostinho: Uma vez que, como vejo, o mal se radicou tão profundamente em ti, não basta cortá-lo à superfície, pois logo voltaria a cres­cer; importa arrancá-lo pela raiz.
Mas não vejo claramente por onde comece, tantas são as coi­sas que me inquietam. Para que, distinguindo, o efeito seja mais eficaz, tratarei os vários assuntos isoladamente.
Diz-me pois que coisa entre todas consideras mais molesta?
Francesco: Tudo quanto vejo, sinto e oiço pela primeira vez.

Ag. Por Deus! Nada te agrada então?
Fr. Se não nada, por certo muito pouco.
Ag. Agradar-te-á pelo menos o que é salutar! Mas diz-me, por favor, que coisa te desagrada mais?

Fr. Já to disse.

Ag. Tudo isso pertence àquilo que chamei tédio. Todas as tuas coisas te desgostam.
Fr. E igualmente me desgostam as alheias.
 Ag. Também isso deriva da mesma fonte. Mas, para darmos alguma ordem ao que havemos de dizer: as tuas coisas desgostam-te realmente tanto como afirmas?

Fr. Deixa-te de palavras inúteis: desgostam-me ainda mais de quanto se possa dizer.
Ag. Então não te importas daqueles bens pelos quais muitos te invejam?

Fr. Por força deve ser bem infeliz o que inveja outro infeliz.
Ag. Mas que coisa te desgosta mais que tudo?
Fr. Não sei.
Ag. Essa agora! Se eu fizer uma enumeração de tudo confessar-mo-ás?
Fr. Dir-to-ei com toda a franqueza.
Ag. Revoltas-te contra a tua fortuna.
Fr. Como poderei não odiar essa soberba, vio­lenta, cega perturbadora da sorte dos mortais sem alguma discriminação?
Ag. Todos se lamentam dos males em geral; mas venhamos aos teus pessoais. Que dirias se te demonstrasse que te lamentas sem motivo? Não quererias reconciliar-te com ela?
Fr. Será bastante difícil convenceres-me, mas se mo demonstrares, aceitarei. Ag. Crês que a fortuna é avara para contigo.
Fr. Melhor, avaríssima, iniquíssima, soberbís- sima, crudelíssima.
Ag. Não há só o Resmungão do poeta cómico, há muitos outros, inumeráveis. E tu és um desses. Preferia contar-te entre os poucos que o não são. Mas já que a matéria é tão repisada que dificilmente poderemos acrescentar-lhe algo de novo, consentir-me-ás que adopte um velho remédio para uma velha doença?
Fr. Como queiras.
Ag. Pois bem: a miséria já te fez, porventura, passar fome e sede?
Fr. Não, a sorte não foi cruel comigo até esse ponto.
Ag. E no entanto, para quanta gente esses são males de cada dia!
Fr. Por favor, se podes escolhe outro remédio, que esse não me serve de nada. Não sou desses que se consolam dos seus males com olhar para as legiões de infelizes que choram à sua volta; eu então, que sofro pelas desgraças alheias não menos que pelas minhas!


Autor: Francesco Petrarca (1304-1374)
Editado por: nicoladavid
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