Se o lamentar das aves, se das frondes



Se o lamentar das aves, se das frondes
O doce movimento na aura estiva,
Ou rouco murmúrio de águas luzentes
Se ouve, numa florida e fresca margem,

Onde eu, de amor vencido, pense ou escreva,
A que o Céu me mostrou e a terra esconde
Eis que vejo, oiço e entendo que ainda viva
De tão longe aos suspiros meus responde.

«Ah, porque antes de tempo te consomes?»
Me diz com piedade: «Porque vertes
Dos olhos tristes um magoado rio?

Por mim não chores tu, que a minha vida
Fez-se eterna ao morrer, e na luz pura,
Parecendo que os fechava, abri os olhos.»

 

Autor: Francesco Petrarca (1304 – 1374)
Editado por: nicoladavid

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