Passa, cheia de olvido, a minha nau



Passa, cheia de olvido, a minha nau,
À meia-noite, em duro mar, no Inverno,
Entre Scila e Caribdis; e ao governo
Vai o senhor, melhor, o imigo meu;

Aos remos, pensamentos atrevidos
Da tormenta e do fim parecem rir;
Fere as velas um vento húmido e eterno
De esperanças, desejos e suspiros.
 

Chuva de pranto, névoa de rancor,
Afrouxa e banha os já cansados cabos,
Entrançados de engano com estultícia.
 

Ocultam-se-me as luzes costumadas
Morre nas ondas a razão e engenho,
E eis-me começo a desesperar do porto.

 

Autor: Francesco Petrarca (1304 – 1374)
Editado por: nicoladavid

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