Cartas – Resposta a um amigo



A tagarelice da tua carta, toda cheia de gracejos mordazes, que li sorrindo alegremente, sacudiu- -me do meu torpor. (...)

Que dizes tu? Que eu inventei o belo nome de Laura para poder falar dela e para que por este meio falassem de mim: mas que na reali­dade não tenho no coração nenhuma Laura, mas apenas aquela láurea poética à qual aspiro, como atesta o meu longo e infatigável estudo; que tudo quanto respeita a essa Laura viva, a cuja beleza pareço rendido, é artifício: fingidos os versos, simulados os suspiros.
Se nisto ao me­nos os teus gracejos tivessem acertado no alvo, e em mim houvesse apenas simulação e não paixão! Ninguém, crê-me, sem grande fadiga consegue simular por muito tempo; e afadigar-se um homem sem proveito para se fingir louco é a maior das loucuras.
Acresce ainda que, quando estamos sãos, facilmente podemos com os modos fingir uma doença, mas não pode­mos simular a palidez. E tu conheces a minha palidez e o meu tormento; por isso suspeito que, com a tua jucundidade socrática que cha­mam ironia, e na qual não cedes nem a Sócrates em pessoa, te divertes à custa do meu mal.
Mas espera: esta minha ferida com o tempo há-de amadurecer, e será como no dito de Cícero: «O tempo fere, o tempo cura»; contra esta Laura, que dizes fingida, há-de socorrer-me porventura o meu «fingido» Agostinho. Pois que, muitas e graves coisas lendo, e muito meditando, chegarei a ser velho antes de enve­lhecer.

Autor: Francesco Petrarca (1304-1374)
Editado por: nicoladavid

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