Carta sobre Dante, dirigida a Boccacio



Eu não tenho motivo algum para odiar um homem que nunca vi senão uma única vez na minha primeira meninice. Viveu no tempo de meu avô e de meu pai, mais novo que o primeiro e mais velho que o segundo, com o qual foi exilado da pátria no mesmo dia e devido à mesma agitação política.
Entre os com­panheiros de desventura muitas vezes nascem grandes amizades, e isso aconteceu também entre aqueles, que tinham de comum, além dos su­cessos da fortuna, os estudos e o engenho; mas enquanto meu pai, que tinha outros cuidados e se preocupava com a família, aceitou o exílio, ele opôs-se-lhe e consagrou-se com mais afinco aos estudos, sem de mais nada curar, e dese­joso apenas de glória. E por este facto o não admirarei nem louvarei nunca bastante: que nem a injúria dos concidadãos, nem o exílio, nem a pobreza, nem os ataques dos inimigos, nem o amor conjugal nem o afecto pelos filhos o desviaram nunca, sequer uma vez, do caminho que traçara; ao passo que há outros engenhos tão grandes quão sensíveis, que por um leve sus­surro se deixam distrair das suas intenções; o que sucede com mais frequência àqueles que escrevem poesia, os quais, devendo preocupar-se não só dos conceitos e dos vocábulos mas tam­bém do ritmo, têm mais que os outros necessi­dade de recolhimento e silêncio.
Compreenderás portanto quão odioso e ridículo me parece o ódio por ele que me atribuem, porque não há razão alguma para que o odeie, mas muitas para que o ame: o saber, a pátria comum, e a amizade com meu pai, e o seu engenho e estilo, óptimo no género, que o imu­nizam de qualquer desprezo. A outra acusação que me dirigem é a de não ter nunca possuído um sequer dos seus livros, embora tendo-me dedicado a coleccionar livros desde a primeira juventude; quando se tem entusiasmo por estas coisas: e não só isto, mas o não ter-me inte­ressado pela sua obra, que está ao alcance de todos, quando, em contrapartida, com ardente empenho me apliquei à busca de volumes que é quase impossível encontrar.
Isto é verdade, admito, mas o meu procedimento não foi deter­minado pelos motivos que apontam.
Naquele tempo eu dedicava-me ao seu mesmo género de poesia, escrevia em vulgar; nada me parecia melhor e não aspirava a mais altos voos, mas temia, se lesse os seus versos ou os de outros, que me acontecesse imitá-lo sem querer e sem me dar conta, dada também a minha idade juvenil, tão pronta a admirar e a assimilar.
Ousado na sua juventude, o meu ânimo abor­recia esta ideia: tais eram a confiança e a pre­sunção, que me propus conquistar um estilo próprio e original, só com o meu engenho e sem auxílio de ninguém: os outros que julguem se eu acertei. Alguns pois acusam-me de ódio, outros de des­prezo por este poeta, cujo nome hoje calo propositadamente, para que o vulgo, que tudo ouve e nada entende, não vá depois assoalhar por aí que eu digo mal dele; outros, por sua vez, acusam-me de inveja, e são esses mesmos que me invejam a mim e ao meu nome. Com efeito, embora eu não seja muito de invejar, não me faltam invejosos, coisa que a princípio não acre­ditava mas que depois acabei por reconhecer.
Mas diz-me, como posso eu invejar alguém que dedicou toda a vida a coisas nas quais eu gastei apenas a primeira flor da juventude? Eu, que considerei apenas como gracejo, desfastio, exercício mental, aquilo precisamente que cons­tituiu para ele, se não o único, pelo menos o máximo empenho? Como é possível neste caso ter inveja ou despeito? Entre os vários louvores disseste também que, se ele tivesse querido, teria podido escrever em outro estilo: eu creio sem dificuldade que ele teria triunfado no que quer que empreendesse, porque tenho na máxima estima o seu engenho.
Mas o que é um facto é que se dedicou ao vulgar. E aliás, que valem todos esses teria podido e teria triunfado? Parece-te que deva daí extrair motivo de inveja, e não de alegria? E quem poderia invejar um homem que não inveja sequer Virgílio? A menos que pensem que eu o invejo pelo aplauso e o rouco vozear dos tintureiros, ostiários, gladia­dores e de outros, cujos louvores, que soam como ofensas, me alegro de não merecer, junta­mente com Virgílio e com Homero.
Eu, na ver­dade, sei em que conta é tido, entre os doutos, o louvor dos ignorantes.
Espero que me creias se te juro que me agradam
o engenho e o estilo deste homem, e que dele não falo senão com admiração.
A quem me interroga com mais insistência, respondo apenas isto: que não foi igual a si mesmo, porque se saiu melhor na obra em vulgar do que nos carmes ou na prosa em latim; coisa que não
podes negar, e que aliás para todas as pessoas de bom senso resulta em maior glória e louvor do homem.
Quem, com efeito, foi igualmente sublime em todos os ramos da eloquência, não só agora, que ela está morta e sepultada, mas até no momento do seu máximo florescimento?


Autor: Francesco Petrarca (1304-1374)
Editado por: nicoladavid

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