A Ignorância Própria e Alheia



Concedamos pois a estes, que ma negaram a mim, a cultura; ou melhor, uma vez que, se não me engano, a cultura não pode ser-lhes atribuída, concedamo-la a quem quer que tal mereça. A estes, baste-lhes a alta estima em que a si mesmos se têm, e o nome nu de Aristóteles, que com as suas cinco sílabas tanto apraz aos ignorantes. E fique-lhe também o gáudio vazio e inane e a presunção sem fun­damento e prestes a desmoronar-se, e todos aqueles frutos que os fátuos ignorantes ti­ram dos seus erros, com ingénua e fácil cre­dulidade.
Quanto a mim, baste-me a humildade; a cons­ciência da minha ignorância e fragilidade; o desprezo somente do mundo, de mim e da insolência de quem me despreza; a descon­fiança a meu respeito e a esperança em ti; finalmente, baste-me Deus e a virtude sem dou­trina, pela qual não sou invejado.
Sem dúvida eles rirão ao ouvir isto, e dirão que eu faço discursos pios como uma velhinha analfabeta. E com efeito para estes, inchados de erudição, nada é de menor valor que a devoção; ao passo que os verdadeiros sábios e os homens de cultura, modestos, a têm em grande conta. Para estes últimos, «religião é sapiência», mas aque­les, ouvindo o meu discorrer, mais e mais se confirmarão na ideia de que eu sou bom homem, mas sem cultura. Eles tinham por costume propor qualquer discussão de filosofia aristo­télica, ou qualquer tema de zoologia. E eu calava-me, ou motejava, ou mudava de assunto; às vezes perguntava-lhes, sorrindo, como podia Aristóteles saber coisas das quais não há qual­quer conhecimento racional e é impossível toda a experiência. Eles admiravam-se, e embora nada dissessem, zangavam-se e consideravam-me um blasfemo, ao qual não bastava, para crer nas coisas, a autoridade daquele grande homem; como se na verdade filósofos e amantes da sabedoria nos tivéssemos tornado todos aristoté­licos ou pitagóricos, e tivesse voltado a estar em voga aquele uso ridículo, segundo o qual nada se podia perguntar se ele o não tivesse dito.
E ele era Pitágoras, como escreve Cícero. Eu creio que Aristóteles foi um homem ilustre e bastante douto, mas de qualquer modo um homem, e como tal entendo que pode ter igno­rado algumas coisas, ou antes muitas coisas; e direi mais, se mo consentem estes que são sectários mais que amigos da verdade: creio, e não tenho dúvida alguma, que ele não só se enganou em cousas de pouca monta, em que o erro é ligeiro e de modestas consequências, mas saiu do caminho certo também em coisas mportantíssimas, aquelas que dizem respeito à nossa salvação eterna.

Autor: Francesco Petrarca (1304-1374)
Editado por: nicoladavid
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