A Epopeia de África



E eis que, enquanto o jovem cartaginês estava no mar alto, o mal crescia e mais sobre ele impendia a dura morte, arquejando, com agudas dores. E vendo aproximar-se a hora suprema, ele começou: «Ah! Que fim este para um nobre destino! Quão cega é a mente nos momentos felizes! Regozijar-se com os altos postos é a loucura dos poderosos.
Tal condição está sujeita a inumeráveis tormentas, e a sorte de quem se elevou é vir a precipitar-se.
Ó píncaro vaci­lante das grandes honrarias, ó falaz esperança humana, ó glória inane ornada de fingidas blandícias! Ó vida incerta, condenada a per­pétuo trabalho, ó morte sempre certa e nunca bastante prevista! Com que iníqua sorte nasce o homem na Terra! Todos os animais repou­sam; só o homem não conhece tréguas, e ansioso, pelos anos adiante, se apressa em direc­ção à morte. E tu, Morte, óptima entre todas as cousas, tu só descobres os erros, e dissipas
os sonhos da vida que passou. Só agora, mísero de mim, vejo quantas cousas busquei em vão e quantas fadigas voluntariamente suportei que teria podido evitar. O homem, que afinal tem de morrer, esforça-se por chegar às estrelas: mas a morte nos ensina onde estão as coisas que nos pertencem. De que valeu armarmo-nos contra o Lácio poderoso, incendiar as casas, romper o equilíbrio do mundo, toda a cidade revolver com sinistro tumulto? De que serviu ter erguido altos palácios doirados com paredes de mármore, se enfim o meu triste destino me faz morrer assim, sob a abóbada do céu? Ó meu irmão caríssimo, que projectos tens em mente, ignorante da sorte cruel, sem nada saber de mim?» Disse, e o espírito liberto se ergueu ao Céu, tão alto que abarcou no mesmo olhar, a igual distância, Roma e a cidade de Cartago.
Feliz na prematura despe­dida, que não teve de assistir aos horríveis morticínios e à desonra das armas insignes, e às dores do irmão, e suas, e da pátria.

Autor: Francesco Petrarca (1304-1374)
Editado por: nicoladavid
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