Ó minha alcova, que já foste o porto

Ó minha alcova, que já foste o porto
Dessas tormentas que passei diurnas:
Hoje és fonte de lágrimas nocturnas
Que escondo por vergonha o dia todo.

Leito, que eras conforto e eras repouso
Em tanto afã, de que urnas lastimosas
Te banha Amor, por essas mãos ebúrneas
Só para mim cruéis, por injustiça!

Não fujo do repouso e do retiro:
Fujo de mim e deste pensamento
Que de tanto o seguir me ergueu aos céus;

E o vulgo, para mim odioso e adverso
Quem tal diria? Por refúgio busco,
Tal medo tenho de me achar sozinho.

 

Autor: Francesco Petrarca (1304 – 1374)
Editado por: nicoladavid

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