Sou como o guardião

 

Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!

Na tumular mudez dum povo que descansa,

As criações do Sonho, os fetos da Esperança

Repousam no meu seio o sono derradeiro.

De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:

É mais uma ilusão, um féretro que avança...

Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa

Depois um som cavado — a enxada do coveiro!

Minh'alma, como o monge à sombra das clausuras,

Passa na solidão do pó das sepulturas

A desfiar a dor no pranto da demência.

— E é de cogitar insano nessas cousas,

É da supuração medonha dessas lousas

Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!

 


Autor: Fontoura Xavier (1856-1922)
Editado por: nicoladavid

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