Transfiguração

 

E os meus olhos rasgarão a noite; 
E a chuva que vier ferir-se nas vidraças
compreenderá, então, a sua inutilidade;

E todos os sinos que alimentavam insónias
hão-de repetir as horas mortas
só para os ouvidos da torre;

E os outros ruídos abafar-se-ão no manto negro da noite;
     
E a mão alva que me apontava as noites
e ficou debruçada no postigo
amortalhada pela neve
reviverá de novo;

E os meus braços se erguerão transfigurados
para o abraço virgem dos teus braços
que andava perdido, sem dar fé deste meu reino;

E todas as luzes que tresnoitarem os homens
apagar-se-ão;

e o silêncio virá cheio de promessas
que não se cansaram na viagem;

E todos os povos de Babel
com as riquezas que há no mundo
virão festejar em minha honra;

E todos os caminhos se abrirão
para os homens que seguirem de mãos dadas:
   
O sangue derramado de Cristo
Terá finalmente significação
e da inútil cruz do martírio se erguerá o pendão da vitória;

E assim terão começo
os sonhados dias dos meus dias!  


Autor: Fernando Namora (1919-1989)
Editado por: nicoladavid

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