Cantar D’Amigo

 

Estrangeiro!
Talharam-nos em redor fossos, limites
e o cerco das fronteiras.
Estrangeiro!
Ninguém entendeu, e nem tu,
estrangeiro,
que entre nós não existem cordilheiras.

Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,
quando a minha vida roçou a tua vida.
De olhos parados, indiferentes,
quando passei a teu lado.

Estrangeiro!
Ficou-me esse desperdício de um adeus
que as tuas mãos frias não disseram,
nem os teus olhos vidrados,
nem a tua boca selada,
mas que eu pressenti, como alguém á beira de um cais,
ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,
agitando lenços estranhos,
alguém que sofre por nada.
Iludimos a vida, amigo!

E como para ultrapassar as fronteiras
os fossos,
as ironias
bastaria um só olhar!...
Não, estrangeiro!
Vamos misturar o sangue dos rios
o abismo dos mapas
fazer qualquer coisa!
Misturar, misturar.

Autor: Fernando Namora (1919-1989)
Editado por: nicoladavid

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