Distância

 

Não vás para tão longe! 
Vem sentar-te 
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim... 
Tenho o desejo doido de contar-te 
Estas saudades que não tinham fim. 

Não vás para tão longe; 
Quero ver 
Se ainda sabes olhar-me como d'antes, 
E se nas tuas mãos acariciantes, 
Inda existe o perfume de que eu gosto. 

Não vás para tão longe! 
Tenho medo 
Do silêncio pesado d'esta sala... 
Como soluça o vento no arvoredo! 
E a tua voz, amor, como se cala! 

Não vás para tão longe! 
Antigamente, 
Era sempre demais o curto espaço 
Que havia entre nós dois... 
Agora, um embaraço, 
Hesitas e depois, 
Com um gesto de tédio e de cansaço, 
Achas inconveniente 
O meu abraço. 

Não vás para tão longe! 
Fica. Inda é tão cedo! 
O vento continua a fustigar 
Os ramos sofredores do arvoredo, 
E eu ponho-me a pensar 
E tenho medo! 

Não vás para tão longe! 
Na sombra impenetrada, 
Como se agita e se debate o vento!... 
Paira nas velhas ruínas do convento 

Que além se avista, 
A alma melancólica d'um monge 
Que a vida arremessou àquela crista... 

Céu apagado, negro, pessimista, 
E tu sempre mais longe!...

Autora: Fernanda de Castro (1900-1994)
Editado por: nicoladavid
 

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