Comunhão

 

Como um pássaro doido o sino canta. O incenso é como um véu, uma auréola que envolve cada santa.
A manhã sabe a céu.

A igreja é toda ela um grande altar, e cada altar um andor
em que os santos e as rosas vão a par.
A manhã sabe a flor.

É a hora em que a hóstia se avizinha. Os véus da comunhão são duma cor mais alva que a farinha.
A manhã sabe a pão.

Envolve Deus num longo e doce abraço, a multidão fiel.

Um gosto a primavera anda no espaço.
A manhã sabe a mel.

Na penumbra da igreja a hóstia benta, como um claro farol,
arranca à treva a multidão cinzenta.
A manhã sabe a sol.

Desfolham-se no chão giestas aos molhos, rosmaninho do monte. Anda a emoção boiando à flor dos olhos.
A manhã sabe a fonte.

É a hora em que a fé, na comunhão, expulsa os fariseus.
A igreja, agora, é toda um coração.
A manhã sabe a Deus.

Autora: Fernanda de Castro (1900-1994)
Editado por: nicoladavid

 
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