Paisagem Com Duas Tumbas E Um Cão Assírio

 

Amigo, levanta para que ouças latir o cão assírio.

As três ninfas do câncer estiveram dançando, filho meu.

Trouxeram umas montanhas de lacre rubro

e uns lençóis duros onde estava o câncer dormido.

O cavalo tinha um olho no pescoço

E a lua estava no céu tão frio

que teve de desgarrar-se seu monte de Vênus

e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos.

 

Amigo, desperta, que os montes ainda não espiram

e as ervas de meu coração estão em outro lugar.

Não importa que estejas repleto de água do mar.

Eu amei muito tempo um menino

que tinha cem anos dentro de um punhal.

 

Desperta. Cala. Escuta. Incorpora-te um pouco.

O uivo é uma longa língua arroxeada

de deixa formigas de espanto e licor de lírios.

Já vem até a rocha. Não alongues tuas raízes!

Aproxima-te. Geme. Não soluces em sonhos, amigo.

 

Amigo!

Levanta para que ouças uivar

o cão assírio.

Autor: Frederico Garcia Lorca (1898-1936)
Editado por: nicoladavid

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