Alma Ausente

 

Não te conhece o touro nem a figueira,

nem cavalos nem formigas de tua casa.

Não te conhece o menino nem a tarde

porque já morreste para sempre.

 

Não te conhece o lombo da pedra,

Nem o raso negro onde te destroças.

Não te conhece a lembrança muda

Porque já morreste para sempre.

 

O outono virá com suas conchas,

uva de névoa e montes agrupados,

mas ninguém virá olhar teus olhos

porque já morreste para sempre.

 

Porque já morreste para sempre,

como todos os mortos da Terra,

como todos os mortos esquecidos

em um monte de cães apagados.

 

Ninguém te reconhece. Não. Mas eu te louvo.

Eu canto desde já teu perfil e tua graça.

A madurez insigne de teu conhecimento.

Tua apetência de morte e o gosto de sua boca.

A tristeza que teve tua valente alegria.

 

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,

um andaluz tão claro, tão pleno de ventura.

Eu canto sua elegância com palavras que gemem

e relembro uma brisa triste pelas oliveiras.

Autor: Frederico Garcia Lorca (1898-1936)
Editado por: nicoladavid

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