Cegos

 

Três cegos, três foragidos
Da vida que os ameaça,
Vêm na tarde mansa e lenta,
Que a nós saudosa se enlaça,
Em doce voz que atormenta
Pedindo esmola a quem passa

Cantando ali se detêm,
Nesse decoro banal
De estreita rua amarela:
Jaz um velho num portal,
Olha um bebé da janela...

Ri a seus pés a ironia,
Da luz branca, da luz fria
Da tarde, sem piedade...
E aquela voz triste e nua,
Vaga, fluida, mole, escorre...
Vai em penas pela rua,
Na minha alma se insinua
Quase desfeita, e ali morre
Em penumbras de humildade.

Paira a solidão imensa,
Emana das suas vidas:
Das atitudes suspensas,
Daquelas frontes vencidas!...
Mais fere o meu coração

O generoso perdão
Das bocas amarguradas,
Que em voz doce e magoada
Inda insistem em nos dar
A esmola duma canção!...

Calou-se a voz triste e nua;
Na rua,

Levam três cegos seu rumo,
Como as nuvens, como tudo
Que a um poder oculto obedece...

Triste minha alma desperta,
Aparece no silêncio
Da voz mortal e profana,
Na tarde que se dissolve
Em noite,

A noite que nos irmana.

Lá longe vejo-os partindo:
Três cegos? — O que serão?!...
Já tudo em volta se apaga...
Outro mundo se ilumina
De luz mais pura e divina,
Não da luz dos olhos meus,
Onde minh'alma me leva,
Onde a minh'alma divaga
Só com a morte e com Deus!

 

Autor: Fausto José (1903-1975)
Editado por: nicoladavid

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