O Dilúvio


Há muitos dias já, há já bem longas noites 
que o estalar dos vulcões e o atroar das torrentes 
ribombam com furor, quais rábidos açoites, 
ao crebro rutilar dos coriscos ardentes. 

Pradarias, vergéis, hortos, vinhedos, matos, 
tudo desapar'ceu ao rude desabar 
das constantes, hostis, raivosas cataratas, 
que fizeram da Terra um grande e torvo mar. 

À flor do torvo mar, verde como as gangrenas, 
onde homens e leões boiam agonizantes, 
imprecando com fúria e angústia, erguem-se apenas, 
quais monstros colossais, as montanhas gigantes. 

É aí que, ululando, os homens como as feras 
refugiar-se vão em trágicos cardumes, 
O mar sobe, o mar cresce. e os homens e as panteras, 
crianças e reptis caminham para os cumes. 

Os fortes, sem haver piedade que os sujeite, 
arremessam aos chãos pobres velhos cansados. 
e as mães largam, cruéis, os filhinhos de leite, 
que os que seguem depois pisam, alucinados. 

Um sinistro pavor; crescente e sufocante, 
desnorteia, asfixia a turba pertinaz: 
ouvem-se urros de dor, e os que vão adiante 
lançam pedras brutais aos que ficam pra trás. 

Raivoso, o touro estripa os míseros humanos 
que o estorvam, ao correr em fuga desnorteada, 
e pelo ar tenebroso as águias e os milhanos 
fogem, com vivo horror, daquela estropeada. 

Cresce a treva infernal nos cavos horizontes; 
o oceano sobe e muge em raivas cavernosas, 
e as ondas, a trepar pelos visos dos montes, 
fazem de cada vez cem vítimas chorosas! 

Os negros vagalhões, nos bosques mais cimeiros. 
silvam e marram já, em golpes iracundos; 
resplendem raios mil em rútilos chuveiros, 
e os corvos, a grasnar, desolham moribundos. 

Blasfémias, maldições elevam-se à porfia; 
fustigado p’lo raio, aumenta o furacão; 
cada ruga do mar acusa uma agonia, 
cada bolha, ao estalar, solta uma imprecação. 

Cresce no mar, sobe o mar... e traga, rudemente. 
da mais alta montanha o píncaro nevado. 
e um tremendo trovão aplaude a vaga ardente, 
que envolve, ao despenhar-se, o último condenado. 

Cresce o mar, sobe o mar, que já topeta os céus: 
e, levada p’lo fero e desabrido norte, 
sua espuma, a ferver, molha o rosto de Deus, 
que lhe encontra um sabor nauseabundo de morte... 

Cresce o mar, sobe o mar... Cada vaga é uma torre! 
No céu, o próprio Deus melancólico pasma... 
E, pelos vagalhões acastelados, corre 
a Arca de Noé, qual navio-fantasma... 

Autor: Eugénio de Castro (1869-1944)
Editado por: nicoladavid



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