Novo Anacreonte


— Quantas mulheres desejei? – Centenas.
— E quantos beijos cobicei? – Milhares.
— De tal cobiça o que ficou? – Pesares.
— E dos desejos o que me resta? – Penas.

— Buscando rosas, o que achei? – Gangrenas.
— Buscando gozos, o que tive? – Azares.
— Ambicioso, o que plantei? – Palmares.
— E colhi palmas? – Não, silvas apenas.

— Não vejo a que esperei! – Virá ainda.
— É já tarde. – No Inverno há muita flor.
— É já noite. De noite fulge o luar.

— A ilusão é cruel. – Cruel, mas linda.
— Quem me tornou tão desgraçado? – O amor.
— E agora, velho, o que farei? – Amar.

 

Autor: Eugénio de Castro (1869-1944)
Editado por: nicoladavid


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