Em Que Emprego O Meu Tempo?


Em que emprego o meu tempo? Vou e venho, 
sem dar conta de mim nem dos pastores, 
que deixam de cantar os seus amores, 
quando passo e lhes mostro a dor que tenho. 

É de tristezas o torrão que amanho, 
amasso o negro pão com dissabores, 
em ribeiros de pranto pesco dores, 
e guardo de saudades um rebanho. 

Meu coração à doce paz resiste, 
e, embora fiqueis crendo que motejo, 
alegre vivo por viver tão triste! 

Amor se mostra nesta dor que abrigo: 
quero triste viver, pois vos não vejo, 
nem sequer muito ao longe vos lobrigo. 

Autor: Eugénio de Castro (1869-1944)
Editado por: nicoladavid


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