Amores


                                                a Jean Moréas’ 

Judite, a loura e magra que ora vive 
entre palmas e mirra, nas novenas; 
Dulce, a de peitos de hidromel e penas, 
com quem libidinosas noites tive; 
Maria a ingénua, a plácida e macia, 
ingénua como um pintassilgo e pura 
como um mês de Maria; 
Lídia, a trigueira hostil, severa e dura, 
e Fábia, a de olhos perturbantes, lassos, 
e de morenas, aprilinas pomas, 
Fábia, cujos abraços 
me vestiam de aromas 
todas adorei, 
todas me adoraram 
quando as desprezei. 

Antes de as possuir, antes de as subjugar 
co’a força do meu verbo e a luz do meu olhar, 
em cada uma eu via o céu aberto; 
Mas apenas ao peito as comprimia, 
o meu entusiasmo arrefecia 
e o céu sonhado transformava-se em deserto… 

Ante a posse, os desejos esmorecem; 
Do amor na amarga pugna, 
fui como os doentes que tudo apetecem 
e a quem tudo repugna 

Autor: Eugénio de Castro (1869-1944), in Antologia Poética
Editado por: nicoladavid


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